Primeira cicloviagem: 10 erros comuns e como evitá-los

Viajar de bicicleta tem uma característica que sempre me fascinou: o caminho deixa de ser apenas a ligação entre um lugar e outro e passa a fazer parte da própria viagem.

Quando estou de bicicleta, percebo detalhes que provavelmente passariam despercebidos dentro de um carro. Uma pequena cidade, uma conversa no caminho, uma subida que parecia interminável, uma paisagem que surge depois de uma curva. Tudo ganha outro ritmo.

Depois de muitas experiências pedalando pelo Brasil e também em outros países, percebi que muita gente gostaria de experimentar o cicloturismo, mas não sabe por onde começar a planejar a primeira cicloviagem.

E existe também o problema contrário: a pessoa se empolga tanto com a ideia da primeira cicloviagem que começa grande demais.

Quer muitos quilômetros, uma bicicleta nova, equipamentos sofisticados, alforjes cheios e uma aventura digna de documentário.

Não precisa ser assim.

Inclusive, em 2026 foi divulgado o novo levantamento Cicloturistas do Brasil 2025, com 1.688 respostas válidas, número bastante superior às 302 respostas da edição de 2008 e às 1.196 de 2018. A pesquisa busca justamente compreender melhor a diversidade das pessoas que fazem cicloviagens pelo país. Aliança Bike

Ou seja: não existe apenas um tipo de cicloturista.

Se você está pensando em fazer a sua primeira cicloviagem, reuni alguns erros que considero importantes evitar.

1. Achar que a primeira cicloviagem precisa ser uma grande expedição

Talvez esse seja o primeiro mito que precisamos derrubar.

Você não precisa atravessar um país para dizer que fez uma cicloviagem.

Sua primeira experiência pode acontecer durante um fim de semana. Pode ser uma cidade relativamente próxima. Pode envolver apenas um ou dois pernoites.

O objetivo inicial deveria ser descobrir como você se comporta viajando de bicicleta.

Pedalar algumas horas perto de casa e voltar para o mesmo lugar é diferente de acordar sabendo que aquele dia será mais uma etapa de uma viagem.

Há bagagem. Há horário. Há alimentação. Há clima. Há imprevistos. E no dia seguinte você precisa subir novamente na bicicleta.

Por isso, para a primeira experiência, eu prefiro pensar em uma viagem possível e prazerosa, e não em uma prova de resistência.

2. Escolher a rota olhando apenas para a quantidade de quilômetros

Esse erro é clássico.

“São só 50 quilômetros.”

Só?

Depende.

Cinquenta quilômetros praticamente planos podem representar uma experiência completamente diferente de 50 quilômetros com grandes subidas, estradas ruins ou trechos técnicos.

Por isso, distância não pode ser analisada sozinha.

Planejamento de rota

Os mesmos 50 km podem ser duas viagens bem diferentes

50km

Praticamente planos

  • Altimetria suave
  • Piso em bom estado
  • Ritmo mais constante

50km

Com subidas e piso ruim

  • Subidas longas
  • Estradas ruins ou trechos técnicos
  • Muito mais tempo na bicicleta

Antes de olhar o número, olhe o terreno.

Antes da minha viagem, procuro saber:

  • distância da etapa;
  • altimetria;
  • tipo de piso;
  • circulação de veículos;
  • disponibilidade de água e alimentação;
  • cidades e pontos de apoio;
  • possibilidade de hospedagem;
  • alternativas para interromper ou encurtar o percurso.

Para quem está começando, uma rota estruturada e com pontos de apoio pode facilitar bastante a experiência.

Em junho de 2026, por exemplo, a Aliança Bike divulgou um guia gratuito dedicado justamente à primeira cicloviagem, reunindo dez rotas brasileiras, dicas e tracklogs. A própria iniciativa parte de uma questão essencial: escolher uma rota compatível com o momento e a experiência de cada ciclista. Aliança Bike

3. Superestimar a distância que você consegue pedalar por dia

Esse ponto está diretamente relacionado ao anterior.

Se você costuma fazer um pedal de 70 quilômetros no domingo, isso não significa automaticamente que deveria programar etapas diárias de 70 quilômetros durante uma cicloviagem.

Em uma viagem, a bicicleta pode estar mais pesada. Você pode parar para fotografar, conversar, conhecer um lugar, comer ou simplesmente apreciar a paisagem.

E isso é cicloturismo.

Não transforme sua primeira cicloviagem em uma corrida contra o relógio.

O planejamento deve considerar seu condicionamento, o terreno, a altimetria, a bagagem e a quantidade de horas de luz disponível.

Prefiro terminar uma etapa com vontade de pedalar mais do que descobrir, ainda longe do destino, que programei quilômetros demais.

4. Comprar uma bicicleta nova achando que ela resolverá tudo

É muito fácil entrar nessa armadilha.

Você começa a pesquisar cicloturismo e, de repente, parece que precisa trocar bicicleta, comprar bolsas, GPS, roupas, acessórios e uma quantidade enorme de equipamentos.

Calma.

Para uma primeira cicloviagem, o mais importante é saber se sua bicicleta está adequada ao percurso e em boas condições mecânicas.

Antes de viajar, faça uma boa revisão. Freios, pneus, rodas, corrente e transmissão merecem atenção.

Também é fundamental pedalar com a bicicleta já preparada da maneira como será utilizada na viagem.

Não deixe para descobrir no primeiro dia que uma bolsa encosta na roda, que o bagageiro está fazendo barulho ou que determinada configuração ficou desconfortável.

A melhor bicicleta para começar não é necessariamente a mais cara. É aquela adequada ao percurso, bem regulada e com a qual você se sente seguro.

5. Levar bagagem demais

Esse é outro aprendizado que a estrada ensina rapidamente.

Quando estamos em casa preparando os alforjes, quase tudo parece indispensável.

Na primeira subida, nossa percepção sobre a palavra “indispensável” pode mudar bastante.

Cada objeto acrescentado à bagagem será transportado por você.

Por isso, antes de fechar as bolsas, eu gosto de fazer uma pergunta simples:

vou realmente usar isso durante a viagem?

É claro que alguns itens são importantes: roupas adequadas, ferramentas básicas, itens para pequenos reparos, hidratação, documentos, celular, carregadores e aquilo que o roteiro especificamente exigir.

Mas existe uma grande diferença entre estar preparado e carregar a casa inteira na bicicleta.

6. Estrear equipamentos durante a viagem

Sapato novo, selim novo, bermuda nunca utilizada, bolsa recém-instalada…

A primeira cicloviagem não é o melhor laboratório para descobrir se tudo funciona.

Faça pedais antes da viagem utilizando a configuração que pretende levar.

Coloque peso na bicicleta.

Teste as bolsas.

Use as roupas.

Observe o conforto.

Veja como a bicicleta se comporta em subidas e descidas carregada.

Um passeio de teste pode revelar pequenos problemas enquanto você ainda está perto de casa.

Antes de viajar

Checklist do pedal de teste

  • Pedale com a configuração da viagem, do jeito que ela vai ser usada.
  • Coloque peso na bicicleta e sinta como ela se comporta carregada.
  • Teste as bolsas: nada encostando na roda, nada fazendo barulho.
  • Use as roupas e os equipamentos que pretende levar.
  • Observe o conforto do selim, do sapato e da posição.
  • Enfrente subidas e descidas com a bagagem para ver como a bike responde.
  • Pratique com as ferramentas que vai carregar, como no caso de um pneu furado.

Melhor descobrir o problema perto de casa do que no primeiro dia de estrada.

7. Não aprender o mínimo de mecânica da bicicleta

Você não precisa se transformar em mecânico profissional para viajar de bicicleta.

Mas considero importante saber resolver alguns problemas básicos.

Um pneu furado, por exemplo, não deveria significar necessariamente o fim da viagem.

Conhecer sua bicicleta e saber utilizar as ferramentas que está carregando dá muito mais autonomia na estrada.

E há um detalhe óbvio que muita gente esquece: não adianta carregar uma ferramenta que você não sabe usar.

Antes da viagem, pratique.

8. Ignorar alimentação e hidratação

Durante uma cicloviagem, não espere ficar completamente sem energia para lembrar de comer.

E não espere sentir muita sede para procurar água.

Ao estudar a rota, verifique onde estão os pontos de abastecimento. Em regiões mais isoladas, a distância entre duas cidades ou estabelecimentos pode ser grande.

O mesmo vale para alimentação.

Em alguns percursos, você encontrará restaurantes, mercados e padarias com frequência. Em outros, será necessário carregar alguma coisa.

É a rota que determina essa estratégia.

9. Planejar tudo, menos os imprevistos

Pode chover.

Pode furar um pneu.

Uma estrada pode estar diferente do que aparecia no mapa.

Você pode acordar cansado.

Pode demorar muito mais em uma subida.

Pode simplesmente encontrar um lugar tão interessante que queira permanecer ali por mais tempo.

Por isso, planejamento não significa construir um roteiro que não pode ser alterado.

Na minha visão, um bom planejamento também precisa deixar espaço para o imprevisto.

Tenha alternativas. Saiba onde é possível interromper uma etapa. Informe alguém sobre seu roteiro, principalmente se estiver viajando sozinho. Mantenha seus meios de comunicação carregados e tenha acesso ao percurso mesmo quando a conexão com a internet não colaborar.

Segurança vem antes da obrigação de cumprir uma planilha.

10. Esquecer que cicloturismo também é turismo

Para mim, esse talvez seja o erro mais importante desta lista.

Se o objetivo fosse apenas percorrer quilômetros rapidamente, poderíamos falar somente de treinamento esportivo.

Mas estamos falando de cicloturismo.

Pare.

Fotografe.

Conheça aquela pequena cidade.

Converse com as pessoas.

Experimente a comida local.

Observe a arquitetura.

Leia sobre a história do lugar.

Quando pedalei por diferentes regiões do Brasil e por países como Itália, França, Holanda e Cuba, percebi cada vez mais que a bicicleta proporciona justamente essa aproximação.

Você não está apenas passando pelo destino.

Está atravessando aquele território em uma velocidade que permite observá-lo.

E, muitas vezes, são justamente as coisas que não estavam programadas que se transformam nas melhores lembranças da viagem.

Afinal, como começar no cicloturismo?

Se eu tivesse que resumir minha recomendação para quem pretende fazer a primeira cicloviagem, seria esta: comece com uma experiência compatível com aquilo que você consegue fazer hoje e permita que as próximas viagens cresçam junto com a sua experiência.

Não é necessário esperar ter a bicicleta perfeita, todos os equipamentos ou condicionamento para uma expedição de centenas de quilômetros.

Mas é necessário planejar.

O interesse pelas viagens de bicicleta é suficientemente relevante no Brasil para que a pesquisa Cicloturistas do Brasil 2025 tenha reunido 1.688 respostas válidas e tenha sido estruturada justamente para compreender melhor as diferentes formas de fazer cicloviagens e os fatores que dificultam pedalar pelo país. Aliança Bike

Aliança Bike

Cicloturistas do Brasil: cada edição ouviu mais gente

respostas válidas
2008
302
2018
1.196
2025
1.688

Fonte: levantamento Cicloturistas do Brasil 2025, divulgado pela Aliança Bike em 2026.

E essa diversidade é importante.

Há quem viaje com alforjes. Há quem prefira bikepacking. Há quem durma em pousadas. Há quem acampe. Há quem viaje sozinho, em casal, com amigos ou em grupos organizados.

Não existe uma única fórmula.

Existe aquela que funciona para você.

FAQ — Perguntas frequentes

Tire suas dúvidas sobre a sua primeira cicloviagem.

Quantos quilômetros devo pedalar por dia na primeira cicloviagem?

Não existe uma distância universal. Ela depende do condicionamento do ciclista, peso da bicicleta, altimetria, terreno, clima e pontos de apoio. Para a estreia, vale planejar abaixo do seu limite e deixar margem para paradas e imprevistos.

Preciso comprar uma bicicleta própria para cicloturismo?

Não necessariamente. Para uma primeira viagem, é mais importante avaliar se a bicicleta que você possui é adequada ao percurso, está corretamente ajustada e passou por revisão mecânica.

Preciso treinar antes da primeira viagem de bicicleta?

É recomendável pedalar antes com frequência e, principalmente, fazer pelo menos alguns testes utilizando a bicicleta com a configuração e a bagagem que pretende levar. Assim você consegue identificar desconfortos e problemas antes da viagem.

É melhor fazer a primeira cicloviagem sozinho ou acompanhado?

As duas possibilidades existem e proporcionam experiências diferentes. Quem ainda não se sente seguro para lidar sozinho com navegação, pequenos problemas mecânicos e imprevistos pode preferir começar acompanhado ou participar de uma viagem organizada. Esse será, inclusive, um dos próximos assuntos aqui no Bike no Ar.

Qual é o principal erro de quem começa no cicloturismo?

Na minha experiência, é planejar a viagem considerando apenas quantos quilômetros consegue pedalar. Uma cicloviagem envolve também altimetria, terreno, bagagem, clima, alimentação, hidratação, navegação, segurança e tempo para conhecer os lugares.

Sua primeira cicloviagem não precisa ser perfeita

Provavelmente haverá alguma coisa que você levará e descobrirá que não precisava.

Também poderá esquecer algo.

Talvez uma etapa seja mais difícil do que imaginava.

Faz parte.

A experiência vai ensinar aquilo que nenhum checklist consegue ensinar completamente.

No Bike no Ar, já publiquei um guia passo a passo para planejar o primeiro cicloturismo, no qual entro em detalhes sobre escolha da rota, preparação da bicicleta e organização da viagem. Vale utilizá-lo como complemento deste artigo. Bike no Ar

Depois disso, escolha um destino possível, revise a bicicleta e comece.

Porque chega uma hora em que é preciso parar de imaginar a primeira cicloviagem e começar a pedalar.

Boas pedaladas!

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